Por falta de originalidade, ou por mero aborrecimento, o caso Esmeralda acaba por ser aqui chamado para umas linhas..
Não quero discorrer sobre a separação de poderes, o estado da justiça portuguesa nem nada disso… apenas sobre um tema que, não só me é precioso, como também considero um sinal dos tempos ou qualquer coisa assim: A nova perversão da luta do bem contra o mal.
A criança não foi adoptada segundo o procedimento legal, e não há “amor” que justifique as acções dos pais adoptivos na tentativa de a esconder do óbvio. Lê-se na notícia:
O “caso Esmeralda” tem decorrido nos tribunais desde há vários anos, depois de o progenitor ter perfilhado a filha e pedido o poder paternal, o que lhe foi conferido em 2004.
Não há “amor” que justifique que estes anos se passem sem que a criança possa estar com o seu progenitor biológico, o pai, que quando instado a tal efectuou os testes ADN que comprovaram a paternidade e perfilhou a criança. O casal, no seu “amor” não deveria ter subtraído a menor, e deveria ter acatado a decisão do tribunal no melhor interesse da menor. No entanto tem diligenciado por impedir até ao momento (quase 5 anos!!) que a menor passasse à guarda do pai, supostamente na salvaguarda dos “interesses” da menor.
Este caso tem suscitado uma onda de público a defender que o que interessa é o “amor”. Em nome do “amor”, pode-se adoptar ilegalmente uma criança, sujeitá-la a uma provação na demora da resolução do processo, sequestrá-la, escondê-la.. Como nos “fins” temos o “amor”, os “meios” são justificáveis.
Este “amor” como fim que justifica determinados meios, na consciência popular, é o “bem”, pois trata-se de uma “família de bem” este casal. São “pessoas de bem”, o militar e a esposa, ao contrário do progenitor, que é “mau” uma vez que pagou pelos serviços íntimos da mãe da criança, estando aqui, portanto, o “mal”…
Kundera, na sua “Insustentável Leveza do Ser” caracteriza o Kitsch como a “negação daquilo que é humanamente inaceitável” e chega a compará-lo com o totalitarismo:
Whenever a single political movement corners power we find ourselves in the realm of totalitarian kitsch.
Porque, segundo Kundera, o Kitsch, eliminando-se o “humanamente inaceitável” (chegando mesmo a chamar-lhe de ‘merda’) e tudo o mais que contradiga o Kitsch, gera o consenso:
Kitsch causes two tears to flow in quick succession. The first tear says: How nice to see children running on the grass! The second tear says: How nice to be moved, together with all mankind, by children running on the grass! It is the second tear that makes kitsch kitsch.
Assim neste caso, o Kitsch revelou-se despudoradamente ao nível individual, com uma luta do bem (do casal, do “amor”) contra o “mal” (do pai, que “foi às putas”), e ao nível social, à maneira “Kunderiana” da segunda lágrima: “que boas pessoas nós somos, ao estarmos do lado do amor contra o mal”.
Com este caso, que nem deveria ser do conhecimento popular, o Kitsch assume no “bem” o seu significado popular, daquilo que é piroso, rasca, ordinário… Num totalitarismo de um “bem” moralista contra um “mal” que aqui é necessário: (in)felizmente, não pudémos escolher que pai ou mãe temos.
Quem dera a muitas crianças do mundo terem um pai que assim lute pela sua descendência, pois esta trata-se de uma criança inesperada, mas que na sua estruturação futura, de desejo não se poderá queixar. Que o digam as inúmeras crianças deixadas ao abandono, quer ostensivo nas instituições quer de forma subtil e calada em casa de muitas famílias consideradas normais.
Este pai tem valor e é a única safa desta criança que está fadada a que nunca se esqueça que é filha da mãe que tem. Pelo menos tem um respeitável desejo paternal, que sim, este é de Homem…
Enfim, são Pérolas que temos..

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