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Voltas

Goste-se ou não, tudo dá as suas voltas.

Não tendo sido influência do preço especulativo do petróleo, míngua de cereais ou tão pouco uma crise de valores sem precedentes, as voltas também surgem numa mente inquieta.

E começaram pelo visual.

Goste-se ou não.

A Revolução P.Q.N.F.

Houve um tempo em que a palavra “revolução” se reencontrava consigo mesma num raio sob minha observação, em diversos momentos ou circunstâncias.

É certo que nada devo à dita palavra, nem política, nem semanticamente.

Não devo, porque não fiz desta palavra nem ruptura com as origens, nem caminho de vida. Esta não me trouxe nem satisfação às insatisfações ancestrais, nem satisfação às aspirações.

Desde cedo que a única revolução com a qual pactuo, é a Revolução Pela Qual Nada Farei.

É pela irreverência da mente inquieta que busca e que não se prende ao dogma, que a única Revolução possível para um ser humano - humano no sentido estrito do termo, é a Revolução Pela Qual Nada se Fará.

Por exemplo, como Abril nos ensina - uma geração depois, num tempo em que as desigualdades se acentuam, o futuro surge sombrio na linha horizonte e o passado recente merece desprezo pelas oportunidades perdidas:

Viva a Revolução Pela Qual Nada se terá Feito.

Blog Reserva de Casta Web 0.2

Tenho-me deparado frequentemente com diversas teorias de como “deverá” ser um “blogue” “decente”.

Começando pela palavra “blog”, diminutivo de “weblog”, cuja tradução literal nos leva a algo como “diário em web” ou, mais longe, a “diário pessoal digital”, passando pela dogmatização do “dever” (deverá) e pela moralização do “decente”, a própria questão encerra-se a si própria.

No entanto, numa época em que ter um blog deixou de ser in para passar a ser um instrumento indispensável para quem deseja ser out, não deixará de ser curioso passear pelas afirmações dos que afirmam como devem ser os blogs.

As principais queixas resumem-se a:

  1. Blogs com textos extensos;
  2. Blogs com/sobre política;
  3. Blogs com música;

No entanto ficam de fora da grande maioria das queixas:

  1. Blogs com intermináveis hotlinks* para o youtube;
  2. Higiene ortográfica;
  3. A predominante falta de gosto e imaginação (opinião pessoal) com:
  • Templates - aposta-se pouco na personalização do aspecto, e “já se viu sempre em algum lado”;
  • Endereços - usa-se o “blogspot.com”, “blog.com”, “blog.no.sapo.pt”, entre outros, para não se ter o trabalho e gastar uns míseros 12 € em algo próprio;

    Como já disse há muito tempo, um blog não passa de uma “página” na internet, com ordenação e organização automatizada em forma de repositório de informação. Estas terão o direito de ser sobre o que os autores defendam que sejam, com os conteúdos que entenderem, da forma que desejarem.

    Uso e usarei sempre o termo blog. Porque há casos em que o anglicismo o é por si só, de forma que não faz sentido tentar-se aportuguesá-lo, como que lhe dando uma legitimidadezinha. Mas enfim, não sendo linguista, gosto da língua e defendo a pertença à origem dos termos que lhe sejam estranhos.

    Escrevi, e escreverei em quantidade sempre que tal for aplicável, sobre política sempre que se justificar.

    Sempre que tiver que parar, pararei, sempre que tiver que continuar, continuarei.

    Cá estamos, depois de alguma ausência que teve que ser.

    Passagens

    Há quem diga que todos os caminhos vão dar a Roma, mas a Cidade Eterna nunca sobreviveu sem as suas vias perfeitamente demarcadas cujos restos ainda hoje subsistem à vista desarmada.

    Este ano existiu um novo caminho, não para Roma - desta vez - mas de travessia do Ártico.

    Passagem do Noroeste - Finais de Agosto de 2007

    Pela primeira vez na história escrita, o gelo do pólo Norte que sobreviveu ao degelo de verão foi tão pouco que possibilitou a passagem de navios a Noroeste (linha amarela).

    A minha mente vagueia imediatamente, qual navegador explorando paragens desconhecidas repletas de lugares onde o bizarro se torna mundano e o humano tão exposto à fragilidade da relação.

    Voa para os lugares, para o grotesco e para o quase inenarrável em que Poe coloca Gordon Pym, lugares tão repletos de cheiros a algas-secas arrepiam-me como o sal incrustado na pele e nas vestes que acompanham a paz do balouçar de um navio sobre águas suaves, pungentes de morte indiferente à visão longínqua de jangadas improvisadas de vítimas de canibalismo então já tornadas em repasto luxuoso de gaivotas transformadas em necrófilas.

    Deleita-me no vagar, onde me imagino a acompanhar o Capitão Jack Aubrey e o Dr. Stephen Maturin na sua paragem nas Galápagos, onde cada passo é uma nova descoberta animal ou vegetal - enquanto lá em baixo os homens do mar gritam na reparação da barca cansada e desgastada de mastro caído pela sua guerra contra os franceses. Neste mar onde impera a dualidade da calmaria e da tempestade, fonte de ciência, soam as redes e as cordas das velas no seu ranger suave e ritmado pelo mar, relembrando de momento em momento, que se é quem ali está, sendo o resto, tudo de imensidão tanto como de nada.

    Embala-me na recordação vibrante de um mergulho nas águas tépidas do estuário do rio Komo e do Ebe, onde fechando os olhos e imaginei-me como um marinheiro ressequido em busca de água doce e comida fresca, que acompanhava Diogo Cão na chegada às paragens que apelidou de Gabão, onde me deixei levar até ao escurecer olhando o céu em busca do Cruzeiro do Sul olhando-o de cá de baixo, onde as âncoras imperam no mar quente e forte do sal, das cores dos peixes e da brancura da areia.

    Leva-me lá, de volta, ao lugar onde cheiram bem a maresia, as correntes metálicas e as âncoras decanas das águas calmas e resplandecentes das Berlengas lá ao longe com o Forte ao fundo, qual Bugio onde não se bugia, mas que faz do mar um só e só um: aquele onde nos perdemos no tempo e nos deixamos levar pelos caranguejos à tona de água no seu festim reprodutivo moldando de suavidade fervilhante a crista de cada onda cremosa, que se aproxima e aproxima, passa, e apenas termina naquelas escarpas rugosas assobiantes.

    Esta parece que será mais uma passagem que, independentemente de todas as suas potencialidades económicas e alarmes que levante, levou-me na imaginação e levou-me à certa.

    Levou-me, de passagem, uma vez mais à Barra do Tejo ou Mais Além, onde estou sempre e onde estou em Verdade.

    O Gato da Maya

    A lógica entre um observador, o momento de observação e o âmbito sob observação - no qual está incluído o próprio observador - dá pano para mangas, até para as diversas questões fundamentais - sejam quais forem - que regem a vida e existência de um indivíduo.

    Com o aparecimento da Quântica (leia-se Mecânica, Química, Física, whatever!), esta lógica revestiu-se de especial importância ao ponto de ter sido criada uma metáfora denominada “O Gato de Schrödinger”, criada pelo famoso cientista homónimo. Não pretendo explicar aqui a história deste gato, nem tão pouco as suas possíveis interpretações e muito menos entrar por divagações científicas. Pretendo sim demonstrar que este gato durou a vida de muitos gatos mas, tal como todos os gatos, morreu.

    Nestes dias 25 e 26 de Outubro de 2007, decorre/decorreu uma importante conferência na Fundação Calouste Gulbenkian intitulada “A Ciência Terá Limites?”. Não tendo podido ir por motivos profissionais, pretendo inteirar-me num futuro bem próximo das comunicações efectuadas por um conjunto de individualidades, cuja reunião é difícil que se repita num futuro próximo.

    De uma forma preliminar, um dos primeiros resultados da realização desta conferência, é a vinda de George Steiner a Portugal, que efectuou a Conferência de Abertura.

    Já lhe chamaram “o último dos intelectuais europeus”, e ontem, a 25 de Outubro, perguntou “Onde estão os Platões, os Bachs, os Mozarts, de hoje? Onde estão as grandes obras literárias inspiradas por feitos científicos, como a chegada do homem à Lua?”. Vai mais longe, e no seu pdf para a conferência, por exemplo, questiona:

    Why bother to study, to study difficult languages, to exercice critital doubt when you can read the Da Vinci Code, invoke Harry Potter’s wizards or head for narcotic revelation in the crime-sodden slums of Nepal?

    Referiu ainda que “a irracionalidade, a astrologia, o lixo new age estão a flutuar nas nossas vidas”.

    Se o Senhor Steiner (sim, um Senhor) conhecesse melhor a realidade portuguesa, com certeza divertir-se-ia a reescrever a metáfora do “Gato de Schrödinger” de acordo com o que por cá se predominantemente se pensa:

    Se se fechar um gato numa caixa selada com um gás venenoso e um núcleo radioactivo, não haveria cá Quântica nenhuma. Consultar-se-ia, numa primeira instância, as Cartas da Maya na Pública do último Domingo e procura-se algo que se identifique com a situação dentro das variáveis da data de nascimento do Gato, em primeiro, do observador, em segundo e eventualmente nas datas de fabrico dos componentes da experiência.

    Se se revelar ineficaz produzir uma explicação na primeira instância, recorrer-se-ia a uma segunda instância. Uma ida a um/uma cartomante ou astrólogo amigo/conhecido com certeza que produziria o efeito desejado. Pois como o amigo/conhecido até é uma pessoa interessante e muito culta, até se gosta dela, portanto o gato não se escapava desta sem explicação.

    Em última instância, e no caso de a pessoa que busca explicação tiver uma personalidade persistente, recorrer-se-ia a uma das várias personalidades mais conhecidas no âmbito das artes da astrologia e cartomancia. Entre estas certamente que figuraria o nome da Maya, por exemplo, que numa consulta particular resolveria o caso do gato infalivelmente.

    É, penso eu na minha modesta e humilde opinião, nestes procedimentos cada vez mais correntes que reside o motivo da falta de “Platões, Mozarts ou Einsteins” nos dias de hoje, como refere Steiner, perde-se o cepticismo clássico Grego e a lógica cartesiana, consequentemente também o “Gato de Schrödinger” e a Quântica.

    Tudo isto para nos perdermos no Gato da Maya.

    Referências:

    Conferência:  http://www.gulbenkian.org/cienciateralimites/main.htm

    PDF de George Steiner: aqui.

    Notícias: Aqui, e aqui, por exemplo.

    Pilotices

    Entre diversas actividades que ocupam na minha vida, tenho uma - em part-time, é certo - que é extremamente desgastante.

    Reduz-me a forma física de forma drástica, à medida que envelheço, afrouxa-me, com o passar dos anos, a elasticidade dos canais vasculares, amolece-me o cérebro e o raciocínio de forma acumulada, cada vez que a exerço,  e, sobretudo, cansa-me, cansa-me por vezes de uma forma extrema e desgastante de tal forma que sinto a lâmina da decadência a delapidar  continuamente a minha vitalidade.

    A única vantagem que extraio desta actividade é uma sensação falsa de bem estar e conforto.

    Esta actividade tem o nome corrente de “não fazer nada”, ou simplesmente, preguiça, moleza ou como denominaremos no presente: “scratch fungus from private parts“(S.F.P.P).

    Atendendo à recente greve dos pilotos da aviação civil e às suas reivindicações, considero justíssimo declarar o extremo desgaste que a SFPP provoca como ocupação de longo prazo. Como tal, todos os trabalhadores activos que também - por necessidade, prazer ou despeito - contam com a SFPP entre as suas actividades, (ainda por cima!) em horário extra-laboral, deveriam usufruir do factor de sedentariedade de 0.5 para períodos laborais, e de 0.8 para períodos extra-laborais. Ora, façamos as contas para um trabalhador com 30 anos de carreira:

    • Com a aplicação de 0.5 para SFPP em períodos laborais, obtem um desconto de 15 anos de carreira para poder pedir a reforma;
    • Com a aplicação de 0.8 para SFPP em períodos extra-laborais, obtem um desconto de 24 anos de carreira para poder pedir a reforma;
    • Com a aplicação conjunta de 0.8 e 0.5 para o sobredotado em SFPP, obtem um desconto de 24+3 anos de carreira para poder pedir a reforma;

    Atendendo ao desgaste físico que a SFPP provoca, considero até estes números bastante antipáticos para com os demais trabalhadores, que não sofrendo com a desgastante actividade SFPP, têm que competir com esta gente sobre-ocupada por um posto de trabalho.  Para este efeito, resta uma, e apenas uma única reivindicação: a segmentação entre os que usam o transporte público e os que usam veiculo privado, pilotando-o, para se deslocarem ao local de trabalho.

    A estes últimos, aos pilotos de automóveis,  deveria ser atribuído um factor de desconto de anos de carreira para efeitos de reforma, de tal forma que mesmo antes de nascerem já a sociedade se encontra em dívida para com estes.

    Se por acaso pilotarem aviões, e por acumulação em regime de não-exclusividade, a ocupação em SFPP, estes nem deveriam nascer.

    Posto isto, peço justiça para o meu caso.

    Palpita-me…

    … que me encontro na profissão errada.

    Pois como gosto de palpitar, tenho sempre esta dúvida por mágico twist profissional que efectue, não deixo de por vezes ter esta sensação.

    Eu sei, é apenas um palpite que como muitos, me acompanha durante os meus mais ou menos intensos acontecimentos de vida. Mas o palpite, é de tal forma sedutor, na sua simplicidade processual, na sua ausência de método, de trabalho árduo de recolha de informação, de processamento de dados, de cruzamento referenciado de ideias, de interpretação…

    … enfim, gostaria de não fazer nada na vida e ser comentador. Seja de rádio, televisão ou imprensa escrita, gostaria de ser um “especialista”, um “opinador”, um “achista” (não, não falta o “F”), simplesmente um comentador… Gostaria de ser pago à linha de comentário, à ideia de especialidade, à laracha de opinião, à unidade de “acho que”. Gostaria de ser cheio de vivacidade e de ideias para fora onde os meus olhos brilhassem com a noção de que estaria a ser ouvido/visto/lido. Gostaria de preencher assim os meus vácuos, de com esta profissão não me sentir tão vazio.

    Quando for grande quero ser comentador. Se o for abrirei portas e Portas, pois cria permissividade aos mais escancarados disparates e desculpa-me qualquer parasitismo… tudo porque “acho”, “opino” e sendo “especialista” logo penso, logo existo.

    Tenho apenas um problema.

    Um só, que me remeteria, nesta profissão, à mendicidade: Procuro sentido. O sentido de ser, sentir e fluir, de pensar. Gosto da pesca do raciocínio, da caça do conhecimento. Demasiado.

    Porque não tinha que ser, esta Diáspora esteve parada para quem tinha (ou não) que ver/ler. Mas a fornalha não esteve parada, pois não me palpita, nem acho, nem opino… nem tão pouco sou um “especialista”.

    Mas divago. Por isso seguiremos dentro de momentos…

    Mad(die) World

    A Realidade, o que se pensa que seja a Realidade e aquilo que se deseja acreditar em que seja de facto a Realidade são coisas diferentes.

    Por outro lado, se os tempos determinam as suas pessoas, também determinam a sua percepção da Realidade.

    A aborrecida, leviana e por vezes infundada crítica da opinião mediática britânica (e não só!) à actuação da nossa polícia relativa ao desaparecimento de Madeleine McCann é um exemplo perfeito.

    Como tema de conversa, o desaparecimento da pequena Maddie tornou-se um must entre qualquer grupo de pessoas interessadas na actualidade. A especulação, a opinação e a certeza tornaram-se uma característica das “boas pessoas”, que preocupadas com este “mundo perigoso” - cheio de tarados e pedófilos - se sentem legitimamente preocupadas sobre o contexto do sumiço em questão.

    Maddeye

    Não sei nada, nem faço ideia do que se terá sucedido com a pequena Maddie, pois não sou nem polícia, nem especialista de coisa nenhuma relacionada com o caso, nem tão pouco tenho dados que me permitam elaborar alguma hipótese. Os únicos dados a que tenho acesso são os do espectáculo montado.

    The show goes on

    Julgo pertinente começar a interrogar-me se esta pequena alguma vez existiu. Porque nos sentimos tão seguros com esta presunção? Existem tantos “espectáculos” de entretenimento onde a vida real se funde com a vida imaginária, que o casal McCann tem com este panorama uma projecção mediática apenas comparável à do casal Beckham. A ligeireza das entrevistas, a polidez das respostas, a sobriedade de comportamentos e o perfect timming das “operações”, revelam estudo e estratégia na forma como os referidos conduzem a aparente tragédia que se lhes abateu.

    Será que Maddie alguma vez existiu, ou é mais uma das armas de destruição maciça no Iraque, interrogo-me..

    A loucura deste momento é preocupante e chega ao ponto de surgirem recomendações de um tal Instituto de Apoio à Criança aos pais, como prevenção ao desaparecimento de crianças, demitindo-os das suas responsabilidades. “Não as deixe andar nuas em locais públicos”, “Faça isto”, “Faça aquilo”, “Evite aqueloutro” são as fórmulas de prevenir o desaparecimento de uma criança neste “mundo perigoso”.

    É um mad world este em que as pessoas já não são responsáveis pelo que fazem porque já têm sempre quem lhes diga o que fazer, em que uma investigação de um crime (ainda não comprovado!) torna-se num C.S.I. - Allgarve, em que algum jornalismo desce mais uns furos na consideração literária e perde a noção de sentido e razão turvando a distinção entre a especulação e a realidade…

    mad world!

    Leap

    Encontrava-me no meio de um pequeno caos de trabalho, quando ouço o aviso de SMS no telefone. Abro-o e leio. Era uma pessoa amiga, de São Paulo, Brasil, a avisar os amigos Europeus de que “estava viva” e que “não se encontrava no avião” (da TAM, que se despenhou no Areporto de Congonhas), mas realçou que o acaso poderia proporcionar que tal acontecesse. Nem me tinha apercebido de tal eventualidade, tal a forma que estava embebido pelas minhas ocorrências, e pelo hábito que tenho em esperar que as más notícias corram mais depressa que a boas novas. Assim, tomo consciência da eventualidade, preocupo-me por segundos, e segundos após despreocupo-me, e segundos após fico feliz durante uns segundos. Apercebi-me que a referida pessoa terá recebido imensos SMS dos amigos. E fiquei a pensar…

    Nesta idade dos segundos, percepciona-se perfeitamente a transição de um modo de vida manual para outro, digital.

    Ora, imagine-se que nos encontramos no século XIX, e que há um navio que se afunda entre a costa Australiana e Timorense. E que este navio efectuava uma carreira regular entre Singapura e Darwin. E que levava consigo dezenas de pessoas. Imagine-se toda a rede de conhecidos desses náufragos espalhados pelo mundo, ao ouvir as novas que então chegariam semanas ou meses depois, deitarem as mãos às penas assim que soubessem das novas, e enviarem missivas de preocupação e interrogação aos seus conhecidos e amigos nas proximidades. Um cálculo rápido e grosseiro faz-nos pensar que à medida das comunicações de então, ainda hoje, mais de uma centena de anos depois, ainda estariam em trânsito as respostas e as contra-respostas das preocupações de então…

    Tech.Leap

    O contraste é evidente, entre duas épocas distintas, que no entanto são relativamente próximas. Hoje, a expressão à distância encontra-se reduzida à distância entre o indicador e o polegar. Do instante em que nos apercebemos de uma tragédia ao instante em que fazemos chegar uma preocupação, passam-se segundos. São leaps digitais que atravessam as regras do tempo com as quais a espécie humana há muito se encontrava habituada a conviver.

    São leaps também mentais. Porque a comunicação processa-se segundo a regra do instante, segundos após aquele em que a mente produziu a ideia. Mais depressa se expressa a ideia, mais depressa se arruma a questão.

    Mais efémeros são os afectos e as questões.

    As relações humanas arriscam-se a resumirem-se a leaps electrónicos, em que cada indivíduo se especifica e se posiciona como um transístor, uma resistência ou um chip

    A Pedra de Roseta

    Uma das razões pelas quais por vezes apetece o exílio, é a dificuldade em decifrar as tramas de intenções que se enovelam e entrelaçam noutras intenções. Trends within trends.

    Lisboa tem sido uma cidade sacrificada. Sacrificada à mercê dos mais variados agentes nos seus jardins, nos seus bairros históricos, nas suas gentes, no seu património e até nos seus subterrâneos, não obstante o crescimento qualitativo que se tem verificado especialmente nas duas últimas décadas.

    Um metro no Terreiro do Paço, outro no Cais do Sodré, outro na Baixa, um elevador no Poço do Borratém, o parque de estacionamento da Praça da Figueira, um túnel no Marquês de Pombal e uma qualidade de vida em degradação contínua para os seus habitantes. Sim, refiro-me à Lisboa anterior e posterior ao Terramoto, à Lisboa até ao estado novo, à Lisboa que secularmente fez a poesia, à Lisboa que permite o azul tão único do seu céu. A “outra Lisboa” e as suas avenidas, torres e blocos de apartamentos não é para aqui chamada. É sim chamada a Lisboa que Fernando Pessoa descreve naquele que pode ser considerado o mais sui generis guia turístico da cidade: “Lisboa: o que o turista deve ver”.

    Lisboa: o que o turista deve ver Esta Lisboa é a que nos dá prazer de andar por ela sem esbarrar nos crescentes carros estacionados, sem respirar no trânsito fumegante e sem tropeçar na ideia de que o eléctrico é que atrapalha o tráfego. É a Lisboa que tem os pequenos cantos, da cidade bem iluminada pelo dia, de sombras espaçadas pela noite, de jardins aprazíveis como pequenos oásis de verde e serenidade de que as pessoas gostam e na qual se sentem bem - observa-se na face dos turistas, transeuntes e demais.

    Esta Lisboa, nas eleições que aí viram a 15 de Julho, é a Lisboa que deveria ser discutida. A Lisboa que já foi uma das maiores metrópoles do mundo, interface entre quatro continentes e capital de uma das mais expandidas identidades europeias. Todos os candidatos - antes de esbanjarem argumentos e autocolantes - deveriam ler este livro à priori. Vamos observar se neste debate eleitoral os seus candidatos e as suas campanhas prestigiam a cidade, que merece. Estejamos atentos a Helena Roseta. Sendo arquitecta, bastonária da Ordem da sua profissão e uma política experiente terá possibilidades de obter um bom resultado e trazer não só um novo significado ao candidato autárquico independente que não o do (presumível) criminoso, mas também um novo interface de comunicação entre a cidadania, a política e a identidade.

    Esperemos que a candidata Helena tenha lido Fernando Pessoa sobre o seu “lar”, senão em vez de uma Pedra de Roseta, teremos mais uma pedra no sapato.

    Veremos.