A lógica entre um observador, o momento de observação e o âmbito sob observação - no qual está incluído o próprio observador - dá pano para mangas, até para as diversas questões fundamentais - sejam quais forem - que regem a vida e existência de um indivíduo.
Com o aparecimento da Quântica (leia-se Mecânica, Química, Física, whatever!), esta lógica revestiu-se de especial importância ao ponto de ter sido criada uma metáfora denominada “O Gato de Schrödinger”, criada pelo famoso cientista homónimo. Não pretendo explicar aqui a história deste gato, nem tão pouco as suas possíveis interpretações e muito menos entrar por divagações científicas. Pretendo sim demonstrar que este gato durou a vida de muitos gatos mas, tal como todos os gatos, morreu.
Nestes dias 25 e 26 de Outubro de 2007, decorre/decorreu uma importante conferência na Fundação Calouste Gulbenkian intitulada “A Ciência Terá Limites?”. Não tendo podido ir por motivos profissionais, pretendo inteirar-me num futuro bem próximo das comunicações efectuadas por um conjunto de individualidades, cuja reunião é difícil que se repita num futuro próximo.
De uma forma preliminar, um dos primeiros resultados da realização desta conferência, é a vinda de George Steiner a Portugal, que efectuou a Conferência de Abertura.
Já lhe chamaram “o último dos intelectuais europeus”, e ontem, a 25 de Outubro, perguntou “Onde estão os Platões, os Bachs, os Mozarts, de hoje? Onde estão as grandes obras literárias inspiradas por feitos científicos, como a chegada do homem à Lua?”. Vai mais longe, e no seu pdf para a conferência, por exemplo, questiona:
“Why bother to study, to study difficult languages, to exercice critital doubt when you can read the Da Vinci Code, invoke Harry Potter’s wizards or head for narcotic revelation in the crime-sodden slums of Nepal?”
Referiu ainda que “a irracionalidade, a astrologia, o lixo new age estão a flutuar nas nossas vidas”.
Se o Senhor Steiner (sim, um Senhor) conhecesse melhor a realidade portuguesa, com certeza divertir-se-ia a reescrever a metáfora do “Gato de Schrödinger” de acordo com o que por cá se predominantemente se pensa:
Se se fechar um gato numa caixa selada com um gás venenoso e um núcleo radioactivo, não haveria cá Quântica nenhuma. Consultar-se-ia, numa primeira instância, as Cartas da Maya na Pública do último Domingo e procura-se algo que se identifique com a situação dentro das variáveis da data de nascimento do Gato, em primeiro, do observador, em segundo e eventualmente nas datas de fabrico dos componentes da experiência.
Se se revelar ineficaz produzir uma explicação na primeira instância, recorrer-se-ia a uma segunda instância. Uma ida a um/uma cartomante ou astrólogo amigo/conhecido com certeza que produziria o efeito desejado. Pois como o amigo/conhecido até é uma pessoa interessante e muito culta, até se gosta dela, portanto o gato não se escapava desta sem explicação.
Em última instância, e no caso de a pessoa que busca explicação tiver uma personalidade persistente, recorrer-se-ia a uma das várias personalidades mais conhecidas no âmbito das artes da astrologia e cartomancia. Entre estas certamente que figuraria o nome da Maya, por exemplo, que numa consulta particular resolveria o caso do gato infalivelmente.
É, penso eu na minha modesta e humilde opinião, nestes procedimentos cada vez mais correntes que reside o motivo da falta de “Platões, Mozarts ou Einsteins” nos dias de hoje, como refere Steiner, perde-se o cepticismo clássico Grego e a lógica cartesiana, consequentemente também o “Gato de Schrödinger” e a Quântica.
Tudo isto para nos perdermos no Gato da Maya.
Referências:
Conferência: http://www.gulbenkian.org/cienciateralimites/main.htm
PDF de George Steiner: aqui.
Notícias: Aqui, e aqui, por exemplo.