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O Tempo, esse grande escultor

Marguerite Yourcenar levou-me a perceber que há pequenos pensamentos e mistérios sobre a vida e os seus significados que atravessam os lugares, os homens e os tempos. Mas não é sobre Gherardo Perini (cujo mestre foi Miguel Ângelo), nem de algum outro interveniente que aqui se deseja falar. A escritora deixou-nos, em 1984, este livro cujo título aqui é reproduzido conforme a pontuação do original: Le temps, ce grand sculpteur (editado entre nós pela Difel).

Trata-se de um agregado de ensaios de diversos temas, que  coroam um daqueles mistérios que não cessam de abismar o homem através da história.

Este livro foi-me oferecido pelo meu pai há muitos anos, e conquistou-me rápida e inesperadamente para campos literários que até então me eram desconhecidos. Foi um livro que apresentei frequentemente tanto como passaporte para terras longínquas por onde por vezes vagueio, também como de referência estética a ser tida em conta.

Certo dia emprestei-o e desde então que não o vejo. Sei de ideia indirecta onde está, mas a cada dia que passa se cava ainda mais distância e a irrecuperabilidade surge cada vez mais evidente.

No entanto, ao longo dos anos em que fui comprando outros livros de Marguerite Yourcenar, sempre que o via, resistia à sua compra. O livro que desejo é aquele, com a dedicatória que tem e oferecido por quem a fez. Os anos passaram, e a ideia de o recuperar nunca me abandonou, e embora saiba que dificilmente o venha a reaver a intensidade da ideia é crescente.

Interrogo-me por que mistério - daqueles sem lugar, sem homens e sem tempo - teremos coisas destas que são como pedaços que tentamos incessantemente recuperar ao longo da vida sem termos certeza de reaver.

E se recuperamos estes pedaços perdidos que sentimos como partes de nós, o que nos darão no Fim? Uma sensação de plenitude, se tivermos nesse momento incógnito a noção de que estamos no Fim? E se por outro lado, se recuperarmos obsessiva e incessantemente todo e qualquer pedaço destes, de nós, que julgamos perdidos, onde pararemos? E se chegarmos a um ponto onde paramos, o que realmente ganhamos com isso?

O Tempo é a medida destas coisas que se vão perdendo, mas que dentro de nós, crescentemente se vão significando.

Dispersões

Uma sequência de acontecimentos nunca é linear, e ao longo da vida debatemo-nos contra a constante tendência para a dispersão.

A dispersão significa que os acontecimentos ordenados tenham sempre à espreita - lá atrás da porta - o fantasma da desagregação.

Por isso a mente desdobra-se nos “vou ali e já venho” sucessivos, mas regressa - sempre - a algures na esfera de partida: enriquecida.

Estas dispersões são, no fundo, diásporas por onde uma mente vagueia..

Pérolas

Por falta de originalidade, ou por mero aborrecimento, o caso Esmeralda acaba por ser aqui chamado para umas linhas..

Pérolas

Pérola

Não quero discorrer sobre a separação de poderes, o estado da justiça portuguesa nem nada disso… apenas sobre um tema que, não só me é precioso, como também considero um sinal dos tempos ou qualquer coisa assim: A nova perversão da luta do bem contra o mal.

A criança não foi adoptada segundo o procedimento legal, e não há “amor” que justifique as acções dos pais adoptivos na tentativa de a esconder do óbvio. Lê-se na notícia:

O “caso Esmeralda” tem decorrido nos tribunais desde há vários anos, depois de o progenitor ter perfilhado a filha e pedido o poder paternal, o que lhe foi conferido em 2004.

Não há “amor” que justifique que estes anos se passem sem que a criança possa estar com o seu progenitor biológico, o pai, que quando instado a tal efectuou os testes ADN que comprovaram a paternidade e perfilhou a criança. O casal, no seu “amor” não deveria ter subtraído a menor, e deveria ter acatado a decisão do tribunal no melhor interesse da menor. No entanto tem diligenciado por impedir até ao momento (quase 5 anos!!) que a menor passasse à guarda do pai, supostamente na salvaguarda dos “interesses” da menor.

Este caso tem suscitado uma onda de público a defender que o que interessa é o “amor”. Em nome do “amor”, pode-se adoptar ilegalmente uma criança, sujeitá-la a uma provação na demora da resolução do processo, sequestrá-la, escondê-la.. Como nos “fins” temos o “amor”, os “meios” são justificáveis.

Este “amor” como fim que justifica determinados meios, na consciência popular, é o “bem”, pois trata-se de uma “família de bem” este casal. São “pessoas de bem”, o militar e a esposa, ao contrário do progenitor, que é “mau” uma vez que pagou pelos serviços íntimos da mãe da criança, estando aqui, portanto, o “mal”…


Kundera, na sua “Insustentável Leveza do Ser” caracteriza o Kitsch como a “negação daquilo que é humanamente inaceitável” e chega a compará-lo com o totalitarismo:

Whenever a single political movement corners power we find ourselves in the realm of totalitarian kitsch.

Porque, segundo Kundera, o Kitsch, eliminando-se o “humanamente inaceitável” (chegando mesmo a chamar-lhe de ‘merda’) e tudo o mais que contradiga o Kitsch, gera o consenso:

Kitsch causes two tears to flow in quick succession. The first tear says: How nice to see children running on the grass! The second tear says: How nice to be moved, together with all mankind, by children running on the grass! It is the second tear that makes kitsch kitsch.

Assim neste caso, o Kitsch revelou-se despudoradamente ao nível individual, com uma luta do bem (do casal, do “amor”) contra o “mal” (do pai, que “foi às putas”), e ao nível social, à maneira “Kunderiana” da segunda lágrima: “que boas pessoas nós somos, ao estarmos do lado do amor contra o mal”.

Com este caso, que nem deveria ser do conhecimento popular, o Kitsch assume no “bem” o seu significado popular, daquilo que é piroso, rasca, ordinário… Num totalitarismo de um “bem” moralista contra um “mal” que aqui é necessário: (in)felizmente, não pudémos escolher que pai ou mãe temos.

Quem dera a muitas crianças do mundo terem um pai que assim lute pela sua descendência, pois esta trata-se de uma criança inesperada, mas que na sua estruturação futura, de desejo não se poderá queixar. Que o digam as inúmeras crianças deixadas ao abandono, quer ostensivo nas instituições quer de forma subtil e calada em casa de muitas famílias consideradas normais.

Este pai tem valor e é a única safa desta criança que está fadada a que nunca se esqueça que é filha da mãe que tem. Pelo menos tem um respeitável desejo paternal, que sim, este é de Homem…

Enfim, são Pérolas que temos..

Dois e quinhentos

Não é dois mil e nove, é dois e quinhentos, que na antiga moeda ainda transportavam reminiscências da antiguidade..

2$50

2$50

Dois escudos e quinhentos reis eram as duas unidades e meia, que à maneira das partes do Dobrão estavam presentes na memória de um povo, quais sistemas internacionais financeiros ou não, e nos definiam nas nossas divisões íntimas e pessoais.

Esta divisão, entre outras, povoava o nosso imaginário ligado ao “contar dos tostões” que por si era mais antigo que a república, vindo de outros tempos, em que virados para o mar - de facto e não “institucionalmente” - procurávamos as aventuranças que nos permitissem contar mais um tostão.

Cada vez o meu pensamento se perde mais convencido que os capazes, de contar mais um tostão, por lá ficaram na sua terra encontrada de aventurança tornando madrasta uma terra mãe que nunca zelou pelos filhos, quanto mais pelos seus avós.

A história repete-se e não saindo do cliché, a nação “bastarda” torna-se em nação madrasta.

Feliz ano novo, à imagem da felicidade da saída do transacto!

Tempos

Tempos

Tempos

Tempos
“(…)
And you run and you run to catch up with the sun, but its sinking
And racing around to come up behind you again
The sun is the same in the relative way, but youre older
Shorter of breath and one day closer to death

Every year is getting shorter, never seem to find the time
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desperation is the english way

The time is gone, the song is over, thought Id something more to say

(…)”

(”Time”, Pink Floyd)
… mais palavras para quê, poderá alguém designar propriedade ao tempo?

Voltas

Goste-se ou não, tudo dá as suas voltas.

Não tendo sido influência do preço especulativo do petróleo, míngua de cereais ou tão pouco uma crise de valores sem precedentes, as voltas também surgem numa mente inquieta.

E começaram pelo visual.

Goste-se ou não.

A Revolução P.Q.N.F.

Houve um tempo em que a palavra “revolução” se reencontrava consigo mesma num raio sob minha observação, em diversos momentos ou circunstâncias.

É certo que nada devo à dita palavra, nem política, nem semanticamente.

Não devo, porque não fiz desta palavra nem ruptura com as origens, nem caminho de vida. Esta não me trouxe nem satisfação às insatisfações ancestrais, nem satisfação às aspirações.

Desde cedo que a única revolução com a qual pactuo, é a Revolução Pela Qual Nada Farei.

É pela irreverência da mente inquieta que busca e que não se prende ao dogma, que a única Revolução possível para um ser humano - humano no sentido estrito do termo, é a Revolução Pela Qual Nada se Fará.

Por exemplo, como Abril nos ensina - uma geração depois, num tempo em que as desigualdades se acentuam, o futuro surge sombrio na linha horizonte e o passado recente merece desprezo pelas oportunidades perdidas:

Viva a Revolução Pela Qual Nada se terá Feito.

Blog Reserva de Casta Web 0.2

Tenho-me deparado frequentemente com diversas teorias de como “deverá” ser um “blogue” “decente”.

Começando pela palavra “blog”, diminutivo de “weblog”, cuja tradução literal nos leva a algo como “diário em web” ou, mais longe, a “diário pessoal digital”, passando pela dogmatização do “dever” (deverá) e pela moralização do “decente”, a própria questão encerra-se a si própria.

No entanto, numa época em que ter um blog deixou de ser in para passar a ser um instrumento indispensável para quem deseja ser out, não deixará de ser curioso passear pelas afirmações dos que afirmam como devem ser os blogs.

As principais queixas resumem-se a:

  1. Blogs com textos extensos;
  2. Blogs com/sobre política;
  3. Blogs com música;

No entanto ficam de fora da grande maioria das queixas:

  1. Blogs com intermináveis hotlinks* para o youtube;
  2. Higiene ortográfica;
  3. A predominante falta de gosto e imaginação (opinião pessoal) com:
  • Templates - aposta-se pouco na personalização do aspecto, e “já se viu sempre em algum lado”;
  • Endereços - usa-se o “blogspot.com”, “blog.com”, “blog.no.sapo.pt”, entre outros, para não se ter o trabalho e gastar uns míseros 12 € em algo próprio;

    Como já disse há muito tempo, um blog não passa de uma “página” na internet, com ordenação e organização automatizada em forma de repositório de informação. Estas terão o direito de ser sobre o que os autores defendam que sejam, com os conteúdos que entenderem, da forma que desejarem.

    Uso e usarei sempre o termo blog. Porque há casos em que o anglicismo o é por si só, de forma que não faz sentido tentar-se aportuguesá-lo, como que lhe dando uma legitimidadezinha. Mas enfim, não sendo linguista, gosto da língua e defendo a pertença à origem dos termos que lhe sejam estranhos.

    Escrevi, e escreverei em quantidade sempre que tal for aplicável, sobre política sempre que se justificar.

    Sempre que tiver que parar, pararei, sempre que tiver que continuar, continuarei.

    Cá estamos, depois de alguma ausência que teve que ser.

    Passagens

    Há quem diga que todos os caminhos vão dar a Roma, mas a Cidade Eterna nunca sobreviveu sem as suas vias perfeitamente demarcadas cujos restos ainda hoje subsistem à vista desarmada.

    Este ano existiu um novo caminho, não para Roma - desta vez - mas de travessia do Ártico.

    Passagem do Noroeste - Finais de Agosto de 2007

    Pela primeira vez na história escrita, o gelo do pólo Norte que sobreviveu ao degelo de verão foi tão pouco que possibilitou a passagem de navios a Noroeste (linha amarela).

    A minha mente vagueia imediatamente, qual navegador explorando paragens desconhecidas repletas de lugares onde o bizarro se torna mundano e o humano tão exposto à fragilidade da relação.

    Voa para os lugares, para o grotesco e para o quase inenarrável em que Poe coloca Gordon Pym, lugares tão repletos de cheiros a algas-secas arrepiam-me como o sal incrustado na pele e nas vestes que acompanham a paz do balouçar de um navio sobre águas suaves, pungentes de morte indiferente à visão longínqua de jangadas improvisadas de vítimas de canibalismo então já tornadas em repasto luxuoso de gaivotas transformadas em necrófilas.

    Deleita-me no vagar, onde me imagino a acompanhar o Capitão Jack Aubrey e o Dr. Stephen Maturin na sua paragem nas Galápagos, onde cada passo é uma nova descoberta animal ou vegetal - enquanto lá em baixo os homens do mar gritam na reparação da barca cansada e desgastada de mastro caído pela sua guerra contra os franceses. Neste mar onde impera a dualidade da calmaria e da tempestade, fonte de ciência, soam as redes e as cordas das velas no seu ranger suave e ritmado pelo mar, relembrando de momento em momento, que se é quem ali está, sendo o resto, tudo de imensidão tanto como de nada.

    Embala-me na recordação vibrante de um mergulho nas águas tépidas do estuário do rio Komo e do Ebe, onde fechando os olhos e imaginei-me como um marinheiro ressequido em busca de água doce e comida fresca, que acompanhava Diogo Cão na chegada às paragens que apelidou de Gabão, onde me deixei levar até ao escurecer olhando o céu em busca do Cruzeiro do Sul olhando-o de cá de baixo, onde as âncoras imperam no mar quente e forte do sal, das cores dos peixes e da brancura da areia.

    Leva-me lá, de volta, ao lugar onde cheiram bem a maresia, as correntes metálicas e as âncoras decanas das águas calmas e resplandecentes das Berlengas lá ao longe com o Forte ao fundo, qual Bugio onde não se bugia, mas que faz do mar um só e só um: aquele onde nos perdemos no tempo e nos deixamos levar pelos caranguejos à tona de água no seu festim reprodutivo moldando de suavidade fervilhante a crista de cada onda cremosa, que se aproxima e aproxima, passa, e apenas termina naquelas escarpas rugosas assobiantes.

    Esta parece que será mais uma passagem que, independentemente de todas as suas potencialidades económicas e alarmes que levante, levou-me na imaginação e levou-me à certa.

    Levou-me, de passagem, uma vez mais à Barra do Tejo ou Mais Além, onde estou sempre e onde estou em Verdade.

    O Gato da Maya

    A lógica entre um observador, o momento de observação e o âmbito sob observação - no qual está incluído o próprio observador - dá pano para mangas, até para as diversas questões fundamentais - sejam quais forem - que regem a vida e existência de um indivíduo.

    Com o aparecimento da Quântica (leia-se Mecânica, Química, Física, whatever!), esta lógica revestiu-se de especial importância ao ponto de ter sido criada uma metáfora denominada “O Gato de Schrödinger”, criada pelo famoso cientista homónimo. Não pretendo explicar aqui a história deste gato, nem tão pouco as suas possíveis interpretações e muito menos entrar por divagações científicas. Pretendo sim demonstrar que este gato durou a vida de muitos gatos mas, tal como todos os gatos, morreu.

    Nestes dias 25 e 26 de Outubro de 2007, decorre/decorreu uma importante conferência na Fundação Calouste Gulbenkian intitulada “A Ciência Terá Limites?”. Não tendo podido ir por motivos profissionais, pretendo inteirar-me num futuro bem próximo das comunicações efectuadas por um conjunto de individualidades, cuja reunião é difícil que se repita num futuro próximo.

    De uma forma preliminar, um dos primeiros resultados da realização desta conferência, é a vinda de George Steiner a Portugal, que efectuou a Conferência de Abertura.

    Já lhe chamaram “o último dos intelectuais europeus”, e ontem, a 25 de Outubro, perguntou “Onde estão os Platões, os Bachs, os Mozarts, de hoje? Onde estão as grandes obras literárias inspiradas por feitos científicos, como a chegada do homem à Lua?”. Vai mais longe, e no seu pdf para a conferência, por exemplo, questiona:

    Why bother to study, to study difficult languages, to exercice critital doubt when you can read the Da Vinci Code, invoke Harry Potter’s wizards or head for narcotic revelation in the crime-sodden slums of Nepal?

    Referiu ainda que “a irracionalidade, a astrologia, o lixo new age estão a flutuar nas nossas vidas”.

    Se o Senhor Steiner (sim, um Senhor) conhecesse melhor a realidade portuguesa, com certeza divertir-se-ia a reescrever a metáfora do “Gato de Schrödinger” de acordo com o que por cá se predominantemente se pensa:

    Se se fechar um gato numa caixa selada com um gás venenoso e um núcleo radioactivo, não haveria cá Quântica nenhuma. Consultar-se-ia, numa primeira instância, as Cartas da Maya na Pública do último Domingo e procura-se algo que se identifique com a situação dentro das variáveis da data de nascimento do Gato, em primeiro, do observador, em segundo e eventualmente nas datas de fabrico dos componentes da experiência.

    Se se revelar ineficaz produzir uma explicação na primeira instância, recorrer-se-ia a uma segunda instância. Uma ida a um/uma cartomante ou astrólogo amigo/conhecido com certeza que produziria o efeito desejado. Pois como o amigo/conhecido até é uma pessoa interessante e muito culta, até se gosta dela, portanto o gato não se escapava desta sem explicação.

    Em última instância, e no caso de a pessoa que busca explicação tiver uma personalidade persistente, recorrer-se-ia a uma das várias personalidades mais conhecidas no âmbito das artes da astrologia e cartomancia. Entre estas certamente que figuraria o nome da Maya, por exemplo, que numa consulta particular resolveria o caso do gato infalivelmente.

    É, penso eu na minha modesta e humilde opinião, nestes procedimentos cada vez mais correntes que reside o motivo da falta de “Platões, Mozarts ou Einsteins” nos dias de hoje, como refere Steiner, perde-se o cepticismo clássico Grego e a lógica cartesiana, consequentemente também o “Gato de Schrödinger” e a Quântica.

    Tudo isto para nos perdermos no Gato da Maya.

    Referências:

    Conferência:  http://www.gulbenkian.org/cienciateralimites/main.htm

    PDF de George Steiner: aqui.

    Notícias: Aqui, e aqui, por exemplo.