Numa época em que alegadamente se vive uma designada “sociedade da informação”, as consequências da revolução causada pelos novos meios tecnológicos têm um impacto só comparável ao da invenção da imprensa por parte de Gutenberg, elevando a velocidade de propagação e quantidade de informação a um novo paradigma. A industrialização da informação na medida em que esta é disponibilizada ao destinatário final – actualmente designado por ‘consumidor’ – trará certamente um alcance quantitativo inédito na História, porém cria a necessidade de novos contextos que nos permitam redefinir e recontar as histórias que fazem parte do imaginário que acompanha desde há muito a nossa civilização.

A expressão dramática é um dos vectores culturais que formaliza o capital de imaginário que integra a nossa identidade cultural em diversas escalas (nacional, continental, religiosa/mitológica…), e não pode ser secundarizado pela tal “quantidade” consequente da “sociedade de informação”.

A nossa presente procura é no sentido de uma nova forma de afirmação identitária de cultura ajustada aos novos tempos de “quantidade”.

Precisa-se que a (re)criação de processos dramáticos que permitam o (re)contar de histórias que no presente não se diluam no ruído quantitativo.

Precisa-se de imprimir uma visão cultural através do Teatro, em que o símbolo e o significado regressem à ordem da nossa identidade.

 

 

A “salada ‘protestante’” que ali na Avenida se juntou no dia 12, era informe, heterogénea e recheada de grupos diversos, dispares e até antagonistas, bem como uma grande quantidade de pessoas alheadas da política (e dos seus ‘agentes’). Estas últimas dividem-se, por exemplo, nas que odeiam ferozmente, odeiam indiferentemente ou que odeiam com desprezo os actuais ‘agentes’ da política. O grande sucesso deste protesto, no meu entender, foi trazer à rua e à discussão esta gente, que alheada da política, ter-se-à abstido (uns poucos votado em branco – havia cartazes) nas últimas eleições.
Este facto, se ignorado, custará caro aos actuais ‘agentes’ políticos e não só: também à própria democracia.
É que o actual regime encarregou-se de decretar o fim do “demos” para dar lugar ao “media”. Uma política é actualmente definida mais de e para o “media” que para o “demos”. A figura do eleitor é um coisa abstracta – para o político ‘polido’ – que é alcançável e gerida pelo “media”.  Assim, repito: Guy Debord defendia noutros tempos não muito distantes, que na “sociedade  do espectáculo” existe o Homem que se transformou num “ser vulnerável que não consegue distinguir a imagem do real”. Esta indistinção é própria tanto do político ‘polido’, como também do eleitor, sendo que “tudo o que parece é” até que haja “media” suficiente em contrário.
As pessoas alheadas da política saíram este Sábado à rua, e se este facto for ignorado pelos ‘agentes’ políticos, como parece que tem vindo a ser, abrem as portas a que um qualquer “messias” surja e portanto abrem-nas à ditadura.
Só que a culpa desta, não poderá ser imputada à massa informe da sociedade, mas sim a um regime que desistiu de prestar contas ao “demos”, em prol do “media”.

12 Março, Avenida da Liberdade - Lisboa

 

No início, nos Centros Comerciais, comprava-se.
De seguida, nos Centros Comerciais, passou-se a comprar e a comer.
Pouco depois, nos Centros Comerciais, passou-se a comprar, a comer e a entreter.
Ao mesmo tempo, nos Centros Comerciais, passou-se a comprar, a comer, a entreter e a namorar.
Mais adiante, nos Centros Comerciais, além de se comprar, comer, entreter e namorar, começou-se a exercitar.
Quase simultaneamente, nos Centros Comerciais, não só se comprava, comia, entretia, namorava e se exercitava, como também se passou a vaguear.
Actualmente, nos Centros Comerciais, vagueia-se e por isso compra-se, come-se, entretém-se, namora-se, exercita-se.
Amanhã, nos Centros Comerciais, vaguear-se-á e, portanto, comprar-se-á, comer-se-á, entreter-se-á, namorar-se-á e exercitar-se-á.
Assim que o sexo seja oficialmente declarado um produto de consumo, nos Centros Comerciais, as pessoas vaguearão à procura de sexo, e portanto, comprarão sexo, comerão sexo, entreter-se-ão com sexo, namorarão com sexo e exercitar-se-ão no sexo.

Detesto Centros Comerciais, e mais de 26 minutos e meio num, seja qual for, começo a dar em louco.

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Enlèvement d'Europe, Nöel-Nicolas Coypel, c. 1726A Europa que interessa é esta:

Europa, era filha do rei da Fenícia, Agenor, e irmã de Cadmo. Segundo a lenda, Zeus enamorou-se dela, e engendrou uma trama para a seduzir e conquistar sem que fosse descoberto por Hera. Para o efeito, transformou-se num grande touro branco e posteriormente misturou-se com a manada real.

Enquanto Europa e as suas acompanhantes apanhavam flores  esta viu o touro. Este aproximou-se gentilmente e chegando próximo dela, ajoelhou-se aos seus pés. Os modos do touro eram tão meigos que Europa enfeitou-o de flores e superou o seu medo pelo possante animal, ousando montá-lo. Zeus aproveitou a oportunidade e correu para o mar. Nadou com Europa sobre o seu dorso, revelou-lhe a sua verdadeira identidade e levou-a para Creta.

Uma vez chegados à ilha de Creta, Zeus retomou a sua forma humana e tomou-a como amante debaixo Europa e um touro num vaso grego. Museu de Tarquinia, cerca de 480  ACde um cipreste. Desta união nasceram três filhos: Minos, Radamanto e Sarpédon.

Europa tornou-se na primeira rainha de Creta ao desposar posteriormente o rei de Creta que adoptou os seus três filhos que teve com Zeus. Este, à sua partida, reproduziu a sua forma de touro nas estrelas (constelação Taurus).

A procura de Cadmo pela sua irmã, levou-o numa demanda que conduziu à fundação da cidade de Cadmea, que mais tarde viria a ser conhecida por Tebas.

A lenda de Europa, aqui, não chega por um qualquer acesso de mitologia grega que me terá percorrido a mente, muito menos pela plausibilidade de ligação da figura do touro à nossa identidade cultural (muito em voga em redor da vacuidade do problema da tourada).

Invoquei-a, a Europa, porque não se lhe conhece morte nos textos descritos. A mitologia romana soluciona a ausência de morte desta amante humana de Zeus (Júpiter), contando que depois de ter tido os três filhos, entretanto adoptados pelo rei de Creta, a levou para uma nova terra onde lhe deu o seu nome: Europa.

Isto sim: é o que me apetece falar da Europa que todos esquecem no meio das (des)uniões políticas e monetárias, stress-tests à banca, problemas internos nacionais, défices, força e fraqueza do Euro, amigos e inimigos do Euro, agências de rating americanas contra o Euro e instituições e nações europeias, Euro-lixo, Euro-luxo.

A Europa que interessa é esta: a que no imaginário nos diz de onde vimos e quem somos. A que nos diz onde – abstractamente – se começou para chegarmos onde nos encontramos: talvez um dos melhores lugares onde se viver actualmente no mundo. Por enquanto.

 

Gato FedorentoOs Gato Fedorento, durante o período eleitoral, fizeram-se mostrar de forma redutora muito aquém das expectativas como um mero bando de gatinhos dóceis e ronronantes para com os seus convidados. Ao tentarem copiar o “Daily Show”, vulgarizaram-se.. Deveriam ter sido então chamados de Gato Pardo.

Como diz o provérbio popular, “à noite, todos os gatos são pardos” pois tornam-se indistinguíveis uns dos outros, nas suas correrias pelos telhados, caixotes do lixo, beirais e jardins da cidade. Se a fraca luminosidade da noite vulgariza os gatos, o mesmo se pode dizer do brilho ofuscante dos holofotes dos media num período de acontecimentos políticos agitado.

A expectativa em torno do novo programa criado pelos Gato Fedorento tornou-se elevada. A ideia dos actores políticos serem chamados a fazer performance sob o crivo de mordacidade tenaz dos Gato Fedorento agradou aos eleitores e à generalidade do público.

Longe de se querer mergulhar no formato e aspectos técnicos do programa, pretende-se espelhar a desilusão que foi o “passeio dos alegres” que os Gato permitiram a Sócrates, Manuela Ferreira Leite e companhia.

Após acções exemplares como a do cartaz colocado em pleno Marquês de Pombal (que nesta página se representa), em resposta a um cartaz com carácter xenófobo colocado no mesmo local por elementos do PNR (Partido Nacional Renovador, na fotografia), a expectativa em torno dos Gato Fedorento nas eleições passadas foi-se sempre elevando.

Estes Gato Fedorento não foram os mesmos, estes, que pretenderam “esmiuçar o sufrágio”. De esmiuçar, para além de piadas correntes e neutras, não houve nada. Desde o passeio de Sócrates ao programa, onde aproveitou para brilhar o seu profissionalismo político sempre de riso bem colocado, à caminhada tranquila de Ferreira Leite onde reforçou a sua imagem.

Para comparação, nisto de “esmiuçadelas”, basta assistir a um “Daily Show” de Jon Stewart para verificar a profundidade com que ainda esmiúçam a guerra no Iraque, os contornos da crise financeira ou a discussão em torno da saúde pública nos EUA.

E eis que os Gato Fedorento colocaram-se ao serviço do “status” e afagaram carinhosamente e com muito amor, o dito sufrágio e demitiram-se da coragem e inteligência demonstrada no exemplo aqui invocado.

Gatos destes, são Pardos, indistinguivelmente iguais aos demais..

 

O Ardipithecus ramidus vem reforçar a linha divisória entre a evolução e o retrocesso, pois a ideia da origem do Homem começará a sofrer – ainda que de forma indirecta – várias alterações, após a publicação na revista Science dos estudos sobre os esqueletos fossilizados daquele primata primitivo.

Ardipithecus ramidus

Ardipithecus ramidus

http://sciencenow.sciencemag.org/cgi/content/full/2009/1001/1

Os estudos que a descoberta destes esqueletos permitiram, têm sido bastante reveladores e acabam por questionar de forma esclarecida diversas ideias populares e com frequência erradas:

I – O Homem descende do macaco?

Não, desde o estabelecimento da Teoria da Evolução das Espécies, sempre foi referido que o Homem e os símios teriam um antepassado comum, nunca uma descendência desta natureza.

II – Este “antepassado comum”, seria mais idêntico aos símios?

Sim, e não. Entre as várias conclusões deste grande estudo efectuado aos esqueletos do Ardipithecus ramidus, está a de que os grandes símios actuais (Chimpanzé e Gorila), evoluíram separadamente de forma a especializarem-se aos seus habitats. Isto quer dizer que se admite – pela primeira vez com suporte – que determinadas características dos antepassados comuns seriam mais próximas do ramo que daria origem ao homem do que o dos grandes símios, nomeadamente, o bipedismo.

III – O Ardipithecus ramidus é uma antepassado comum entre os grandes símios e os homens?

Não, mas é a “peça” do puzzle mais próxima desse antepassado que foi estudada até à actualidade. As suas características lançam finalmente a luz sobre este e colocam-no como antepassado comum ao humano moderno e o chimpanzé (mas não do gorila e do orangotango).

Esta última conclusão lançam efectivamente o debate sobre a forma como é vista não só a evolução dos humanos actuais como também dos chimpanzés actuais. A grande revolução que introduzem são as de que  – precisamente – os antepassados dos chimpanzés actuais teriam algumas características morfologicamente mais próximas às dos homens actuais, como por exemplo a capacidade de bipedismo: o não uso dos nós dos dedos das mãos como auxílio para se colocarem em pé.

Caricatura de Darwin

Caricatura de Darwin

Charles Darwin, quando publicou o seu “The Descent of Man” foi largamente criticado e inclusivé caricaturado com traços simiescos. Hoje, à luz destas conclusões esta caricatura cai por terra, tal como muitos dos argumentos apresentados pelos “neo-criacionistas”.

O espaço que o “neo-cracionismo” ocupa hoje, é deixado vago pela incapacidade que a ciência moderna tem em esclarecer as respostas que encontra, e em esclarecer as perguntas que ainda tem por fazer. Uma pálida compreensão do método científico pelas comunicades modernas, toldadas pela Tecnologia, e pelos Media incapazes de distinguir a Ciência da Técnica / Tecnologia completam o ciclo atávico do campo onde a designada “Teoria do Design Inteligente” prolifera.

A supremacia da Tecnologia (Tecnologia: Resposta sofisticada a necessidades sofisticadas) como factor económico e empregador abriu uma fractura que coloca a Ciência – e consequentemente a evolução do pensamento – com um novo paradigma:

Serão o saber e o conhecimento, processos de evolução e continuidade, ou meros meios para os fins económicos e individuais cuja origem existe apenas explicada nas escrituras sagradas e nos Desígnios do Senhor?

O Ardipithecus ramidus vem reforçar a linha divisória entre a Evolução e o retrocesso…

 

Com o fim do “demos”, a Mediocracia acaba por ser o governo em que o medio exerce a soberania. Conforme nos demonstra o jornalismo do “day after” das eleições Legislativas, este medio confunde-se com a mediocridade, com as classes médias e com os media. Efectivamente, tal como Guy Debord defendia noutros tempos não muito distantes, na “sociedade  do espectáculo” existe o Homem que se transformou num “ser vulnerável que não consegue distinguir a imagem do real”.

No seu artigo de opinião “A cosmética derrotou a verdade“, Nilza Mouzinho de Sena expõe o que faltou nesta campanha que terminou, e o seu artigo, é em si mesmo uma peça do que faltou nesta campanha. Numa síntese muito interessante, a autora leva-nos à “máquina de imagem” de Sócrates – esse tal Partido Socialista dos “lobos” cuja existência Eduardo Prado Coelho preconizou anos atrás – que caracteriza como de cosmética, e também nos transporta à máquina da verdade social-democrata e por fim não descura os restantes partidos com assento parlamentar.

O diagnóstico apresentado pela professora universitária é temerário. Surge em contra-ciclo com as linhas editoriais seguidas durante a campanha. Afirma, finalmente, ainda que de forma subtil, que os Portugueses são nestas matérias vítimas da indistinção entre a “imagem” e o “real”: Ousando afirmar que “José Sócrates fez jus às orientações da sua profissional machinery…” e que “”Ferreira Leite sustentou a sua trajectória com menos ductilidade e, por isso mesmo, frágil perante as exigências mediáticas contemporâneas…” o seu artigo peca pelo tardio.

Tardio porque o espectáculo apresentado sobrepôs-se ao espaço de reflexão vital que os media não criaram para que o português comum pudesse escolher racionalmente o que se encontra(va) em jogo, distinguindo um pouco melhor o “real” da “imagem”. Ao invés de informação, investigação e confrontação, a generalidade da comunicação social comportou-se como uma divisão dos Departamentos de Imagem e Comunicação dos maiores partidos.

O jornalismo e a sua deontologia não se encontram preparados para criar mecanismos de análise crítica ao fenómeno da “relevância mediática” que relega a sua prática (do jornalismo) a um plano de mero “fornecimento de conteúdos”, ao invés do fornecimento de “produto final” informativo com o qual a classe ganhou notoriedade na história.

Por isto mesmo e por falta de notoriedade na generalidade do jornalismo, que pobre foi a discussão das opções que se encontram em jogo e com isso perdemos todos nós, Portugueses, sem excepção. Os temas quentes sobre a mesa destas eleições foram episódicos, feitos de “casos”, com o culminar no caso-que-não-é-caso-mas-que-poderia-ser-e-que-sendo-seria-gravíssimo das escutas em Belém.

Que futuro desejam os Portugueses, que facturas estarão estes dispostos a pagar, e com que objectivos, em suma, que Portugal se deseja para  as próximas décadas é um tema cuja discussão é atrasada desde a entrada do país na então CEE – a última grande reforma estrutural por cá efectuada. Mas este atraso é cada vez mais evidente e a definição é inadiável.

A mediocridade desta Mediocracia é inimiga do futuro…

mediocracia
s. f.
1. Predomínio social das classes médias.
2. Burguesia.

VeUma vist
 

O arranque oficial da campanha para as legislativas deu-se e já a imprensa internacional ecoa o pormenor mais desinteressante e menos importante entre todos os que se encontram em causa com estas eleições, que surgiu a debate durante a insípida pré-campanha – o TGV, que partiu assim de Lisboa, pela Europa fora, parando primeiro em quase todas as estações e apeadeiros em que podia. Na vizinha Espanha.

Os canais generalistas de televisão (RTP, TVI e SIC), dividiram entre si as fatias do bolo de debates, caindo o brinde à SIC a quem coube a transmissão do último debate e – para muitos – o mais aguardado, entre Ferreira Leite e Sócrates. A sequência com que os canais organizaram os debates foi uma assumpção de bipolaridade partidária, numa lógica simples de iniciar os referidos entre 1º partido + partido pequeno A, 2º partido + partido pequeno B, trocando depois os leques de “cor” política entre si, e voltando a trocar, provocando a ansiedade crescente e expectativa para o “debate final” entre os personagens dos dois grandes partidos.

socrates ferreira leite

Esta assumpção de bipolaridade partidária por parte dos canais de televisão não pode ser inocente, e esta chamada de atenção ao termo assumpção deve-se à sua dualidade: se se assume que existe uma bipolaridade partidária, quem o reconheceu e quem o disse que assim é dentro dos canais de televisão? Se é um consenso entre os orgãos de comunicação social, quem o originou e determinou que se perspectiva a política partidária com esta bipolaridade? Será que todos os editores, redactores e afins são consensuais em lidar com a realidade política de forma bipolar? Com certeza que não, e por mais que o argumento de mercado, audiências e tiragem seja invocado, este consenso que aparentemente reina nas redacções é perverso porque não só apresenta a bipolaridade como “facto consumado” ao público – instando-o ao voto útil – como destrói algo que numa democracia parlamentar deveria acontecer numa campanha: à partida, e até ao contar dos votos, todos os partidos deveriam ser tratados como eligíveis para governo sendo Ferreira Leite e Sócrates meros dois entre os demais.

Se os debates entre os partidos com assento parlamentar e que nas eleições passadas tiveram menos votos, constituíram meras “curiosidades democráticas” para a generalidade dos Media, já o último debate entre os representantes dos dois partidos que nas eleições anteriores tiveram mais votos – um de governo, e outro que ficou em segundo – foi apresentado como a “discussão final”, o “super-debate”, a “revelação”, o “momento”, a “final”, etc..

O facto é que a “final” é só no dia do voto e os Media divergiram a atenção do público desse “detalhe” – importante, por sinal – e o arranque da campanha foi feito ao ritmo dos ecos provocados mais pelo que se disse  – do que pelo que não se disse – no debate entre Ferreira Leite e Sócrates.

O TGV partiu assim de Lisboa, pela Europa fora, parando em quase todas as estações em que podia na vizinha Espanha. Ainda em espaço nacional, obedeceu ao plano Espanhol de linhas de Alta Velocidade: estrela concêntrica em Madrid, concretamente em Moncloa. Já em território Espanhol, parou em todos os “barrios”, autarquias (alcaidarias??) e regiões autónomas.

Pelo caminho, com a via muito bem preparada pelas redacções das agências noticiosas (televisões e escritas) nacionais, atropelou alguma sanidade na discussão eleitoral, deixou à sombra partidos que poderão ter que fazer parte de uma eventual coligação, deixou de lado a discussão sobre que Portugal desejarão afinal os Portugueses no seu Presente, Futuro e percepção de passado, os custos e vantagens das opções programáticas e das promessas, em suma, o TGV sem existir já atirou balastro aos olhos dos Portugueses.

O TGV saíu a Todo o Gás. Venenoso.

 
Media Control: The Spectacular Achievements of Propaganda, New York: Seven Stories Press, 1997.

Media Control: The Spectacular Achievements of Propaganda, New York: Seven Stories Press, 1997.

Numa clara demonstração que a verdade é mais “aquilo que parece”, do que aquilo que porventura “seja” ou “terá sido”, um cenário de eleições é sempre um caso de estudo interessante.

Chegou-me às mãos, há anos, e por mero acaso, este livro de Noam Chomsky que efectua uma análise retrospectiva dos media nos E.U.A. em contextos bélicos, iniciando-se na Primeira Grande Guerra. O primeiro exemplo estonteante data da re-eleição de Woodrow Wilson como presidente americano, com o slogan central de campanha “he kept us out of the war”, em 1916. Esta pretensa neutralidade durou formalmente até Abril de 1917 com a declaração de guerra à Alemanha e o consequente envolvimento americano na guerra.

Chomsky transporta-nos através da evolução dos relatos de guerra jornalísticos desde a re-eleição de Wilson até à declaração de guerra. Exemplifica com artigos de “bebés mortos por soldados alemães” numa pequena localidade Belga, em artigo de rodapé e documenta a evolução do tema até às faustosas manchetes sobre os “maus”, “criminosos” e “perversos” alemães. O povo americano que até então não queria saber da guerra entre os europeus colonialistas, em pouco mais de seis meses ficou colectivamente histérico contra o povo germânico.

Este é o primeiro exemplo da espectacularidade dos efeitos propagandísticos dos meios de informação com que Chomsky nos brinda, num trilho que chega até à primeira guerra do golfo. Este livro foi re-editado pouco depois dos atentados de 11 de Setembro 2001, inalterado no seu miolo, contando apenas com a inclusão de um pós-facio retirado de uma conferência do autor.

Longe de querer aqui redescobrir a roda, pretende-se demonstrar que os cenários de eleições que se avizinham são mais do mesmo: uma colisão de “verdades” sempre relativas de acordo com o ponto de vista do seu relator.

O momento nacional e internacional não é para brincadeiras.

É um momento em que se vive o “futuro” de que se falava há duas, três e quatro décadas atrás e as soluções apresentadas são em suma conjuntos de medidas de contingência para o “presente” e o termo “futuro” não vem mais do que vagamente associado a energias “verdes”, emissões de CO2 para a atmosfera e pouco mais.

As evocações de valores, conforme observamos, surgem cada vez mais repletas de vacuidade – quer na versão Ferreira Leite quando menciona a descaracterização social e familiar do país – quer na versão de Sócrates com a justificação dos “bons fins” para os meios utilizados.

O terreiro para esta luta é nos media. Em vésperas de eleições, os headings são o anúncio de mais uma batalha em que conta a entoação e a forma como se transmitem quem são os “bons” e os “maus”.

Tentaremos, sem compromisso, dar algum controlo ao Media Control nos próximos tempos…

 

Marguerite Yourcenar levou-me a perceber que há pequenos pensamentos e mistérios sobre a vida e os seus significados que atravessam os lugares, os homens e os tempos. Mas não é sobre Gherardo Perini (cujo mestre foi Miguel Ângelo), nem de algum outro interveniente que aqui se deseja falar. A escritora deixou-nos, em 1984, este livro cujo título aqui é reproduzido conforme a pontuação do original: Le temps, ce grand sculpteur (editado entre nós pela Difel).

Trata-se de um agregado de ensaios de diversos temas, que  coroam um daqueles mistérios que não cessam de abismar o homem através da história.

Este livro foi-me oferecido pelo meu pai há muitos anos, e conquistou-me rápida e inesperadamente para campos literários que até então me eram desconhecidos. Foi um livro que apresentei frequentemente tanto como passaporte para terras longínquas por onde por vezes vagueio, também como de referência estética a ser tida em conta.

Certo dia emprestei-o e desde então que não o vejo. Sei de ideia indirecta onde está, mas a cada dia que passa se cava ainda mais distância e a irrecuperabilidade surge cada vez mais evidente.

No entanto, ao longo dos anos em que fui comprando outros livros de Marguerite Yourcenar, sempre que o via, resistia à sua compra. O livro que desejo é aquele, com a dedicatória que tem e oferecido por quem a fez. Os anos passaram, e a ideia de o recuperar nunca me abandonou, e embora saiba que dificilmente o venha a reaver a intensidade da ideia é crescente.

Interrogo-me por que mistério – daqueles sem lugar, sem homens e sem tempo – teremos coisas destas que são como pedaços que tentamos incessantemente recuperar ao longo da vida sem termos certeza de reaver.

E se recuperamos estes pedaços perdidos que sentimos como partes de nós, o que nos darão no Fim? Uma sensação de plenitude, se tivermos nesse momento incógnito a noção de que estamos no Fim? E se por outro lado, se recuperarmos obsessiva e incessantemente todo e qualquer pedaço destes, de nós, que julgamos perdidos, onde pararemos? E se chegarmos a um ponto onde paramos, o que realmente ganhamos com isso?

O Tempo é a medida destas coisas que se vão perdendo, mas que dentro de nós, crescentemente se vão significando.

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